Como a indústria farmacêutica de alta tecnologia está mudando em Manaus

  • 02/07/2026
(Foto: Reprodução)
Polo Industrial de Manaus (PIM) Divulgação/Suframa Durante décadas, o Polo Industrial de Manaus (PIM) construiu sua identidade apoiado em segmentos como duas rodas, eletroeletrônicos, bens de informática e linha branca. São cadeias produtivas que ajudaram a consolidar a Zona Franca de Manaus (ZFM) como um dos principais polos industriais do país. Mas, discretamente, uma nova paisagem começa a se formar pela cidade. Se, durante muitos anos, Manaus foi reconhecida mundialmente pela fabricação de motocicletas, televisores, computadores e aparelhos de ar-condicionado, começa a surgir um novo componente nessa engrenagem industrial: a indústria farmacêutica de alta tecnologia. O setor farmacêutico, antes visto como um segmento complementar dentro do PIM, passa a reunir sinais cada vez mais consistentes de protagonismo. O que chama atenção, além do volume expressivo de investimentos, é a convergência de fatores estratégicos que normalmente caracterizam indústrias de maior intensidade tecnológica: expansão da capacidade produtiva, fortalecimento das atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), incorporação de tecnologias industriais de alto desempenho, processos altamente automatizados e a atração de empresas intensivas em conhecimento e mão de obra qualificada. Nos últimos meses, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) vem intensificando sua agenda com empresas do setor, acompanhando projetos de expansão, implantação de novas unidades e iniciativas voltadas à pesquisa, desenvolvimento e inovação. Esse posicionamento institucional sinaliza ao mercado que a autarquia enxerga o segmento farmacêutico como uma oportunidade relevante para ampliar a diversificação da matriz industrial da Zona Franca. Mais do que acompanhar investimentos já anunciados, essa estratégia contribui para fortalecer a percepção de segurança institucional junto a empresas que avaliam instalar ou ampliar operações na região. A agenda inclui reuniões com a Novamed, do Grupo EMS, além do acompanhamento da implantação da Hypera Pharma em Manaus, reforçando que o segmento passou a ocupar espaço de destaque nas prioridades da autarquia. O caso da EMS é emblemático! A Novamed, instalada em Manaus desde 2014, responde por aproximadamente 80% da produção de medicamentos sólidos do Grupo EMS, possui capacidade instalada de 1,5 bilhão de comprimidos por mês e figura entre as maiores e mais modernas fábricas de medicamentos sólidos do planeta. Recentemente, o grupo anunciou um novo ciclo de expansão estimado em R$ 1 bilhão, ampliando sua estrutura industrial e fortalecendo as atividades de pesquisa e desenvolvimento, justamente em um momento de forte expansão do mercado farmacêutico nacional. A unidade também se tornou referência internacional em manufatura farmacêutica, operando com processos totalmente digitais (paperless), elevado nível de automação e sistemas robotizados, características que levaram Manaus a receber executivos de algumas das maiores indústrias farmacêuticas do mundo interessados em conhecer o modelo operacional desenvolvido na fábrica. Ao mesmo tempo, a implantação da Hypera Pharma reforça essa percepção, já que se trata da incorporação de uma das maiores empresas farmacêuticas do país em um segmento caracterizado por elevada intensidade tecnológica, inovação, rigor regulatório e geração de empregos qualificados. Para a própria Suframa, essa chegada representa mais um passo na estratégia de diversificação da matriz industrial da Zona Franca. Esse conjunto de movimentos pode produzir efeitos que vão além da produção de medicamentos. A consolidação de novas empresas, associada ao fortalecimento das atividades de PD&I, cria oportunidades para ampliar a interação entre indústria, universidades, institutos de pesquisa e fornecedores especializados, estabelecendo bases para a formação, no futuro, de um ecossistema, ou mesmo de um cluster farmacêutico, capaz de agregar ainda mais valor à economia regional. Caso esse movimento mantenha sua trajetória, Manaus poderá consolidar não apenas uma nova atividade industrial, mas um ambiente favorável à integração entre manufatura farmacêutica, pesquisa científica, inovação tecnológica e formação de profissionais especializados, características que, em diversas regiões do mundo, deram origem a ecossistemas industriais altamente competitivos. Essa estratégia da Suframa está alinhada a uma transformação que vem ocorrendo em escala global. Segundo o IQVIA Institute, os gastos mundiais com medicamentos deverão ultrapassar US$ 2,6 trilhões até 2030, com crescimento anual entre 5% e 8%, impulsionado principalmente pelo desenvolvimento de novos medicamentos, pelos avanços tecnológicos e pela ampliação do acesso à saúde. Os números refletem uma transformação estrutural: a indústria farmacêutica deixou de ser impulsionada apenas pelo aumento do consumo de medicamentos e passou a crescer apoiada em inovação científica, biotecnologia, inteligência artificial, medicina personalizada e novos tratamentos para doenças crônicas. Nesse contexto, merece destaque a revolução provocada pelos medicamentos destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes. Poucos segmentos ilustram tão bem essa transformação quanto os medicamentos baseados em GLP-1. A expectativa é que esse mercado movimente mais de US$ 100 bilhões por ano até o início da próxima década, impulsionado por medicamentos como Wegovy, Ozempic, Mounjaro e seus sucessores. Soma-se a isso a incorporação crescente da Inteligência Artificial (IA) na descoberta de novas moléculas, a aceleração das pesquisas clínicas, o vencimento de importantes patentes, a expansão dos medicamentos biossimilares, o envelhecimento da população mundial e a busca por terapias cada vez mais personalizadas. São fatores que vêm redefinindo a indústria farmacêutica e ampliando sua relevância econômica e tecnológica. Apesar de ainda não ser um polo consolidado em Manaus, já é possível reconhecer que o setor deixou de representar apenas uma aposta para o futuro. Os investimentos em curso, o fortalecimento da base industrial existente e a aproximação entre indústria, inovação e pesquisa indicam que uma nova vocação começa a ganhar espaço dentro do parque industrial. Em um cenário de transformação das cadeias globais de produção é necessário garantir competitividade, resiliência e sustentabilidade ao modelo Zona Franca de Manaus. Se, durante décadas, a identidade do PIM foi construída sobre motocicletas, televisores, computadores e eletrodomésticos, talvez estejamos começando a assistir ao surgimento de um novo capítulo dessa história. Um capítulo em que inovação em saúde, pesquisa científica e indústria farmacêutica passam a integrar, de forma cada vez mais consistente, a paisagem industrial da Amazônia. Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/amazonia-negocios/noticia/2026/07/02/como-a-industria-farmaceutica-de-alta-tecnologia-esta-mudando-manaus.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

No momento todos os nossos apresentadores estão offline, tente novamente mais tarde, obrigado!

Top 5

top1
1. Raridade

Anderson Freire

top2
2. Advogado Fiel

Bruna Karla

top3
3. Casa do pai

Aline Barros

top4
4. Acalma o meu coração

Anderson Freire

top5
5. Ressuscita-me

Aline Barros

Anunciantes